“IPCA+8% não é de graça”: Por que aposta em dólar pode ser chave no 2º semestre
Apesar da atratividade da renda fixa no Brasil, especialistas apontam diversificação em moeda forte como pilar para o restante do ano, e listam as oportunidades à vista

O segundo semestre começa com Kevin Warsh, novo presidente do Federal Reserve, anunciando desmontagem radical da arquitetura de comunicação do banco central americano, com a extinção de importantes projeções. Essas mudanças, afirma Marcelo Cabral, gestor e fundador da Stratton Capital, empresa de gestão de investimentos com sede nos EUA, representam uma revolução na forma como o Fed se relaciona com o mercado, acabando com a âncora de precificação que sustentou trilhões de dólares em ativos nos últimos 30 anos.
Renda fixa americana
Segundo Cabral, para o investidor brasileiro que já compreendeu a necessidade estrutural de internacionalizar o patrimônio, as mudanças redesenharam o mapa de alocação global. Na renda fixa, a estratégia mais eficiente nesse momento consiste em concentrar a exposição na parte curta da curva de juros do dólar, ou seja, a Treasuries entre dois e três anos, evitando vencimentos mais longos e mantendo alta seletividade na qualidade de crédito.
Renda variável nos EUA
Cabral acredita que o ciclo de IA continua sendo o principal catalisador de crescimento de lucros corporativos globais, com investimentos massivos em infraestrutura computacional. “Mas o setor [de IA] é bastante volátil e arriscado, apropriado somente para investidores de longo prazo e com alta tolerância ao risco“, alerta o gestor. Para ele, o que está em curso não é um ciclo especulativo de curto prazo, mas a construção da espinha dorsal da economia global das próximas décadas.
O gestor observa que os cinco maiores hyperscalers, como Amazon (AMZO34), Microsoft (MSFT34), Alphabet (GOGL34), Meta (M1TA34) e Oracle (ORCL34), anunciaram investimentos de mais de US$ 700 bilhões em infraestrutura de IA somente este ano, quase dobrando os níveis de 2025, valor que irradia demanda por toda a cadeia do setor, de semicondutores e armazenamento de dados a distribuição de energia.
Cabral cita ainda a transição para a “IA agêntica”, a chamada IA 2.0, que pode agir de maneira autônoma e cuja adoção, ainda em estágios iniciais, deve sustentar o ciclo de investimento por vários anos. Já na Franklin Templeton, a visão para ações de tecnologia americanas é positiva, “mas quando se olha no curto prazo, o nível de preço atual traz cautela, porque existe necessidade de materialização de muitos investimentos“, observa Daniel Popovich, gestor de portfólios.
Outra oportunidade é o setor de petróleo. Para Cabral, os efeitos do bloqueio do Estreito de Ormuz não vão se dissipar rapidamente, mesmo com o fim do conflito militar. Segundo ele, a guerra expôs a fragilidade da cadeia logística de petróleo. “Em consequência, o prêmio de risco embutido no preço do petróleo aumentou”, diz.
Com isso, o petróleo passou a ser um ativo ainda mais estratégico, com um piso de preço estruturalmente mais elevado. “No mercado financeiro, isso significa reprecificação de várias empresas no setor”, afirma Cabral. A reposição das reservas estratégicas usadas durante o bloqueio e a necessidade de novas rotas logísticas e de armazenamento devem manter o preço elevado nos próximos anos e estimular investimentos em infraestrutura, beneficiando empresas que fornecem equipamentos e serviços para oleodutos e terminais.
Cautela na diversificação
Cabral, da Stratton Capital, reforça, porém, que é importante contextualizar essas oportunidades. “A decisão de investir no exterior não pode ser uma aposta especulativa de curto prazo motivada pela conjuntura dos próximos meses”, afirma.
A razão para investir no exterior em moeda forte decorre de um movimento estrutural de diversificação de risco e busca de oportunidades que não estão disponíveis no mercado brasileiro, que representa menos de 2% do mercado global.
“Globalizar a carteira não é especular sobre movimentos de curto prazo; é construir uma estratégia de longo prazo capaz de proteger patrimônio e capturar o crescimento da economia global em sua totalidade”, afirma.

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