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Mercado precifica até duas altas de juros pelo Fed até o 1º tri/27 após voto 9 a 3

7 de ago.
4 min de leitura
Fonte: Shuttershock
Fonte: Shuttershock

Três membros do FOMC votaram por alta imediata de juros na reunião de 29 de julho, elevando o placar para 9 a 3 e rompendo a unanimidade que havia marcado junho.


O Federal Reserve manteve os Fed Funds no intervalo de 3,50% a 3,75% pela quinta reunião consecutiva, conforme amplamente esperado pelo mercado. Mas foi a dissidência que roubou a cena: Beth Hammack (Cleveland), Neel Kashkari (Minneapolis) e Lorie Logan (Dallas) preferiram subir a taxa em 0,25 ponto percentual ainda nesta reunião. A inclusão de Kashkari surpreendeu, dado que ele historicamente ocupa posições mais moderadas no espectro do comitê.


O comunicado foi quase idêntico ao de junho: atividade econômica se expandindo em ritmo sólido, mercado de trabalho equilibrado, inflação acima da meta de 2% e incerteza elevada, em parte reflexo do conflito no Oriente Médio. O FOMC voltou a reconhecer que a pressão de preços reflete, em parte, choques de oferta em setores específicos, especialmente energia.


Diagnóstico dovish, voto hawkish

Vinicius Flores, gestor da Stratton Capital, gestora americana sediada em Nova York, resume o resultado como um comunicado de sinais opostos. "O tom escrito foi até mais brando do que o esperado. O Fed reconheceu explicitamente que a inflação elevada reflete choques de oferta, e choques de oferta não se combatem com juros mais altos", avaliou. Por outro lado, o placar de 9 a 3 pesa na direção contrária. "Três membros votantes preferiram subir os juros em 25 pontos-base, contra uma decisão unânime de 12 a 0 em junho. O resultado líquido é um comunicado equilibrado: dovish no diagnóstico, hawkish na composição do voto", completou.


Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset, destaca que os três dissidentes já vinham defendendo política mais restritiva de forma explícita diante da persistência da inflação acima da meta. Para ela, a composição dos votos reforça a percepção de que o comitê mantém viés de aperto: a curva de juros americana precifica aproximadamente duas elevações de 25 pontos-base até o final do primeiro trimestre de 2027, segundo avaliação da própria Mirae.


Os dados do CME, na véspera da decisão, apontavam 55% de probabilidade de alta já em setembro, reunião que trará dot plot atualizado, o que a torna a janela mais importante do segundo semestre.


Warsh e a "briga de família" no comitê

A coletiva de Kevin Warsh foi o verdadeiro catalisador das oscilações de mercado. O presidente do Fed recusou usar a palavra "pausa", classificando a decisão como "revisão rigorosa da situação econômica", e afirmou que "cinco anos ou mais de inflação acima da meta não se curam em nove semanas, nem com um único mês de quedas modestas de preços". Warsh também reiterou que o Fed "não hesitará em agir" para atingir a meta de 2%, conforme relatado pela Reuters.


O tom surpreendeu pela franqueza sobre o debate interno. "Pedimos uma boa briga de família e conseguimos. Houve muito mais interação entre meus colegas — foi uma briga de família de verdade", disse Warsh na coletiva, segundo a CNBC. O presidente revelou que as cinco forças-tarefa criadas em junho, encarregadas de revisar como o Fed mede a inflação, avalia choques de oferta e comunica suas decisões, já pautam as discussões internas do comitê.


Para Flores, esse foi o ponto central do discurso. As forças-tarefa giram em torno de quatro perguntas fundamentais: quais foram as consequências das decisões do Fed nos últimos cinco anos; qual o impacto dos choques acumulados nesse período (conflitos, pandemia, tarifas e inteligência artificial); se aumentos de preços em setores específicos, como o de memória para chips, se transmitem de forma ampla para a inflação geral; e qual o grau de acomodação que o balanço patrimonial do Fed ainda fornece à economia. "O Fed de Warsh não está apenas decidindo sobre juros. Está revisando como mede a inflação, como avalia choques de oferta e como comunica suas decisões", afirmou o gestor.


Petróleo e o risco de setembro

Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, aponta o petróleo como o principal vetor de risco para os próximos meses. "Com a retomada do conflito no Oriente Médio e o Brent operando em torno de US$ 90 por barril, o choque energético voltou a ganhar tração e tende a se transmitir aos preços ao consumidor caso permaneça nesse patamar", avaliou. Diante desse quadro, a Suno revisou seu cenário e passou a projetar uma elevação de juros no segundo semestre.


A Vanguard ocupa o polo oposto do debate: a gestora espera um "período prolongado de estabilidade" na política monetária americana, argumentando que juros mais altos não resolvem um choque de oferta energético ligado ao conflito no Oriente Médio, tampouco desaceleram o capex em inteligência artificial que pressiona preços, segundo reportagem da CNBC.


Flores pondera que os breakevens de inflação de 5 e 10 anos seguem ancorados na faixa de 2,3%, sinalizando que o mercado não enxerga deterioração estrutural na trajetória de preços, e que as pesquisas regionais de julho não indicam aceleração adicional em relação a junho. Em seu cenário-base, a manutenção ainda prevalece, "desde que não haja um choque exógeno relevante nos preços de energia".


Nos mercados ao fim da sessão de quarta-feira, o S&P 500 encerrou o dia em queda de 1,44%, aos 7.322 pontos, e o Nasdaq 100 cedeu 1,97%, aos 27.217 pontos, revertendo os ganhos iniciais registrados logo após o comunicado do FOMC, à medida que o tom da coletiva de Warsh foi avaliado como mais hawkish do que o esperado. Os rendimentos dos Treasuries de 2 anos recuaram após a decisão, segundo a Mirae Asset, refletindo a leitura de que a manutenção dos juros afasta — ao menos por ora — o risco de aperto imediato. O Índice Dólar (DXY) recuou 0,47%, para 100,89, refletindo o alívio com a manutenção dos juros: enquanto o Fed optar por não apertar, ativos emergentes tendem a ganhar espaço e a moeda americana perde tração.


O próximo teste imediato para a narrativa de choque de oferta será a divulgação, amanhã (30), da prévia do PIB americano do segundo trimestre e do índice de preços do PCE de junho. Números acima do esperado podem reforçar a ala dissidente e acelerar a precificação de uma alta em setembro.


Warsh, por sua vez, indicou que usará as conclusões das forças-tarefa como base para seu discurso no Simpósio de Jackson Hole, entre 27 e 29 de agosto, evento que pode se tornar um marco na comunicação do novo Fed.


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