Fed mantém juros nos EUA, mas dois fatores chamama atenção do mercado
Placar da decisão foi de 9 contra 3, maior número de dissidentes desde 2016; Warsh reforçou compromisso com meta de inflação e disse que Fed não hesitará em subir juros, se necessário

O Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, optou por manter a taxa de juros do país inalterada no intervalo entre 3,5% e 3,75% ao ano nesta quarta-feira (29).
A decisão já era esperada pelo mercado, mas longe do ser o consenso que geralmente antecede as reuniões da instituição.
Como mostramos aqui, no início da semana, os contratos futuros negociados no CME Group - o mercado de derivativos que mostra a chance precificada de alta, manutenção ou corte de juros pelo Fed -, indicavam cerca de 65% de probabilidade de manutenção da taxa, contra pouco mais de 35% de chances de uma alta de juros.
Normalmente, às vésperas da decisão, alguma das alternativas costuma marcar 90% a 95%.
A decisão não foi consenso inclusive no próprio Fed: três dissidentes, Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorie Logan, votaram por um aumento de 0,25 pontos-base já nesta reunião.
Não foi uma surpresa por completo: antes da reunião, o mercado esperava dois votos divergentes; o Bank of America apostava que seriam Hammack e Logan. Mas foi o maior número de dissidentes em uma decisão de Fed desde 2016.
E não deixa de ser um sinal de que o aperto na condução de política monetária, que o mercado passou a precificar desde a piora do conflito no Oriente Médio, está realmente na mesa para as próximas reuniões do ano.
“Nove membros votaram a favor da manutenção e três defenderam o aumento da taxa em 0,25 ponto percentual, o que reforça a expectativa de elevação em algum momento no futuro, a não ser que o choque de preços, especialmente motivado pela geopolítica, seja endereçado”, avalia Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad. “O comunicado foi praticamente idêntico ao da reunião anterior, incluindo o trecho em que o comitê se compromete em entregar estabilidade de preços.
“Apetite por aperto monetário está crescendo dentro do comitê”
Para Vinicius Flores, gestor de investimentos e fundador da Stratton Capital, a decisão trouxe sinais em direções opostas, com um diagnóstico mais dovish, mas uma composição do voto mais hawkish, graças às discordâncias. Ele destaca que, no comunicado, o Fed reconheceu que a inflação elevada reflete, em partes, choques de oferta, que não se combatem com juros mais altos.
“Ao fazer essa separação, o Fed sinalizou que entende a natureza do problema e que não pretende reagir de forma automática a uma pressão inflacionária que está fora do seu controle”, diz Flores. “Por outro lado, acredito que o placar de 9 a 3, contra uma decisão unânime de 12 a 0 em junho, pesa na direção oposta. Essa dissidência tripla mostra que o apetite por aperto monetário está crescendo dentro do comitê.”
Logo após o comunicado, a ferramenta do CME Group indicava cerca de 70% de chance de alta de juros no próximo encontro do Fed, em setembro. Antes da decisão, a aposta era de 80,5%.
Foco na comunicação e compromisso com meta de inflação
A reunião do Fed era aguardada com incerteza, um sentimento que tinha a ver com a instabilidade do cenário macro. Ele é marcado por dados mais benignos na atividade econômica dos EUA e, no lado negativo, pela continuidade do choque de petróleo graças à guerra no Oriente Médio. Mas também pela nova forma de comunicação do Fed.
Esta foi o segundo encontro sob o comando de Kevin Warsh, novo presidente do Fed, indicado do presidente Donald Trump. Desde que assumiu, em junho, o executivo alterou a forma de comunicação da instituição, tornando-a mais enxuta, com menos detalhes e, por consequência, dando menos sinais sobre os próximos passos.
Por causa disso, as atenções desta quarta-feira estavam muito mais voltadas à tradicional coletiva de imprensa concedida após a decisão. Nela, Warsh disse que o objetivo de não oferecer forward guidance não é deixar o mercado sem referência ou gerar surpresas; e que está comprometido com as coletivas este ano.
No discurso, o executivo destacou a necessidade de estabilizar preços nos EUA, reforçando o compromisso de atingir a meta de inflação de 2% ao ano.
“Foi uma mensagem muito clara, muito dura, muito direta, reiterando o compromisso central da instituição com a estabilidade de preços. Um único mês de queda moderada nos preços, que vimos recentemente, não muda esse cenário, e que o Fed não vai hesitar em agir se precisar. A partir de agora, cada vez mais, ele não vai dar um direcionamento para o mercado, mas responder aos dados que a economia apresenta”, destaca William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue.
Warsh também disse que a economia continua sólida e que o investimento em tecnologia e inteligência artificial está “preparando o terreno” para o crescimento futuro.
“A reação do mercado foi positiva, com os ativos de risco americano performando positivamente. Warsh também ressaltou a necessidade de tempo para adotar uma medida, o que indica que estará avaliando os indicadores até a próxima reunião. Ou seja, o cenário continua em aberto”, afirma Sara Paixão, analista de macroeconomia da InvestSmart XP.
Reação do mercado
Após a coletiva de Warsh, o dólar acentuou o movimento de queda global. O dólar hoje, por sua vez, cedeu 0,27% frente ao real, a R$ 5,1084 no fechamento. O Ibovespa recuou 1,52% aos 173.885,34 pontos.
As Bolsas de NY também ganharam força após o discurso, com altas no S&P 500 e no Nasdaq, puxados pelos nomes de tecnologia, mas acabaram cedendo ao final do pregão. O Dow Jones caiu 2,19%, o S&P 500 recuou 1,52% e o Nasdaq teve perda de 1,74%.
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