Tarifaço dos EUA contra o Brasil: uma disputa que tem motivação política
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- há 2 dias
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Artigo escrito por Marcelo Cabral, fundador da Stratton Capital para a BR Investing

A nova rodada de tarifas revela uma estratégia de pressão política e geopolítica que pode elevar o risco-Brasil e mudar a percepção dos investidores globais sobre os ativos brasileiros
Está bastante claro que as tarifas que estão sendo impostas sobre o Brasil têm muito mais relação com pressão política do que com um racional econômico. Os investidores americanos sabem disso. Afinal, os Estados Unidos possuem um superávit comercial significativo com o Brasil, o que, por si só, já coloca em dúvida a justificativa puramente econômica para a medida.
Embora a narrativa oficial apresente justificativas técnicas, na minha leitura, é evidente que as tarifas fazem parte de uma resposta americana à crescente integração econômica do Brasil com a China e também à retórica do governo brasileiro sobre a necessidade de reduzir o papel do dólar no comércio internacional. A visão de Trump é clara: a China e os países que, na perspectiva de Washington, estão alinhados a Pequim representam uma ameaça à posição dos Estados Unidos como potência econômica hegemônica global e, potencialmente, à própria segurança nacional americana.
Ao impor tarifas ao Brasil, os Estados Unidos também enviam um sinal ao mundo: um alinhamento geopolítico mais próximo da China pode acarretar custos econômicos significativos. Dessa forma, vejo essa medida muito mais como um instrumento de pressão do que como uma política comercial desenhada exclusivamente para corrigir desequilíbrios econômicos.
Neste momento, acredito que o risco de uma eventual ativação da Lei de Reciprocidade pelo Brasil, incluindo a possibilidade de suspensão de obrigações relacionadas à propriedade intelectual, ainda não está refletido de maneira significativa na precificação dos ativos brasileiros pelas gestoras americanas. Mas, na minha leitura, é uma questão de tempo.
Ao longo do último ano, vimos mudanças na posição dos Estados Unidos e uma série de idas e vindas entre os dois países. À medida que esse cenário for se desenhando de maneira mais clara, acredito que o aumento do risco-Brasil passará a ser incorporado aos preços dos ativos. A direção, para mim, é clara: com a elevação do risco-Brasil, a atratividade dos ativos brasileiros no exterior tende a diminuir.
Também considero importante observar o custo político interno do tarifaço para os próprios Estados Unidos. O principal impacto vem da possibilidade de pressão sobre a inflação americana. No entanto, para minimizar esse efeito, os Estados Unidos isentaram estrategicamente produtos cuja substituição por produção doméstica é mais difícil, como café, carne bovina, petróleo bruto e componentes aeroespaciais, incluindo produtos da Embraer. Nesse cenário, acredito que o custo político interno da medida tende a ser pequeno.
É importante colocar os números em perspectiva. Os Estados Unidos importam cerca de US$ 290 bilhões da China, enquanto as importações provenientes do Brasil somam aproximadamente US$ 45 bilhões. Ou seja, as importações chinesas são cerca de sete vezes maiores que as brasileiras, o que torna o risco político e econômico dessa relação muito maior. Ainda assim, Trump elevou a tarifa média aplicada aos produtos chineses de 10,9% para 29,6%, segundo dados do Tesouro americano no conceito de "trade-weighted effective rate".
Não descarto, portanto, a possibilidade de uma escalada da disputa comercial. É perfeitamente possível que o conflito avance para além do comércio de bens e eventualmente alcance fluxos de capital ou investimentos diretos entre os dois países. Neste momento, porém, considero muito difícil atribuir probabilidades a esse cenário.
Outro ponto que me chama a atenção é o timing político da nova tarifa. Não se trata de uma coincidência. A tarifa foi anunciada em 15 de julho, com prazo limite para a decisão a menos de três meses do primeiro turno das eleições brasileiras de 2026. Esse calendário reforça, na minha opinião, a interpretação de que as tarifas estão sendo utilizadas como uma alavanca de pressão justamente em um momento de vulnerabilidade eleitoral do governo brasileiro.
Essa é a segunda tentativa dos Estados Unidos em pouco mais de um ano, o que sugere que não estamos diante de um evento isolado. Estamos diante de uma dinâmica mais ampla, na qual o comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos passou a ocupar um espaço dentro do tabuleiro global da rivalidade entre Estados Unidos e China.
É importante lembrar, porém, que existem diversos países asiáticos que são aliados dos Estados Unidos e que não representam, por si só, um risco político para Washington, como Japão, Coreia do Sul e Taiwan. O ponto realmente crucial será observar se haverá um aprofundamento da influência econômica e política da China sobre o Brasil.
Na minha visão, o tarifaço pode até começar como uma disputa comercial, mas seus efeitos podem ser muito mais amplos. Acredito que se o Brasil passar a ser percebido pelos investidores globais como um país cujo risco está cada vez mais associado às tensões geopolíticas entre Estados Unidos e China, poderemos assistir a uma mudança estrutural na forma como o risco-Brasil é avaliado e precificado no exterior.

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