O Custo Real da Transição Energética Europeia
- Vinicius Flores

- há 16 horas
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Os dados econômicos da zona do euro seguem sinalizando uma economia enfraquecida que está caminhando novamente para uma recessão impulsionada pelo choque nos preços de energia. Em nossa visão, há uma clara desconexão entre os fundamentos macroeconômicos e a performance das ações europeias. Enquanto o STOXX 600 (principal índice de ações da região) negocia apenas 2.4% abaixo de seu all-time high, a economia europeia segue se deteriorando rapidamente.

A divulgação preliminar dos PMIs de manufatura e serviços na zona do euro ratificaram nossa tese de que a economia da região é uma das mais afetadas pela disrupção nos preços de energia. Nesse sentido, com os dados de maio, a França registrou o seu pior PMI de serviços dos últimos 5 anos, acompanhada pela zona do euro como um todo, que também teve o pior número dos últimos 5 anos. Da mesma forma, os PMIs de manufatura caíram drasticamente na França, Alemanha e zona do euro. Claramente, a Europa não pode arcar com os custos desse conflito. Em nossa leitura, a zona do euro está colhendo os frutos de décadas de uma política energética pouco eficiente e custosa.
Após o choque do petróleo de 1973, os países europeus iniciaram medidas para reduzir sua dependência de combustíveis fósseis, particularmente gás natural e petróleo. Entre as alternativas adotadas, a Europa priorizou turbinas eólicas e energia solar. Concomitantemente, após os incidentes nucleares de Three Mile Island (1979) e Chernobyl (1986), diversos países que hoje integram a União Europeia desativaram progressivamente suas usinas nucleares, incluindo Itália, Alemanha, Espanha e Lituânia. Essas decisões marcaram o início da transição europeia para energia renovável, formalmente instituída em 2001 com a Diretiva 2001/77/EC. Essa legislação definiu que 12% da geração de energia nacional viesse de fontes renováveis até 2010, representando marco significativo na política energética europeia da época.
Hoje, após décadas de uma política antinuclear e focada na energia verde, 47.5% da energia elétrica na Europa é gerada por meio de fontes renováveis, sendo em torno de 20% gerada por turbinas eólicas, 11% por placas solares e 13% por outras formas. No entanto, desde 2000 a oferta de energia na Europa caiu 14%, assim como o percentual de energia importada segue em 57% desde 2004. Ou seja, mesmo após anos de uma transição energética, a Europa segue dependente de outras nações para satisfazer sua demanda por energia. Como consequência, a Europa é a região desenvolvida com um dos maiores preços de eletricidade para as famílias.
Os dados da International Energy Assocation (IEA) demonstram que os preços de eletricidade no mercado atacadista europeu atingiram uma média de 94 US$/MWh em 2025, 88% maior do que o custo nos Estados Unidos e 51% maior do que na China. Na indústria pesada, a disparidade é ainda mais acentuada: o preço final de eletricidade europeu é 114% superior ao americano, 57% superior ao chinês e 52% acima do indiano. Esse nível de preços reduz drasticamente a competitividade da indústria europeia, principalmente no meio de uma corrida energética desencadeada por um dos maiores ciclos de investimento da história no setor de tecnologia.
Após décadas de investimento em energia limpa, a Europa vivencia os resultados dessa política energética: preços altos para as famílias e indústria, baixa competitividade industrial e alta dependência de importações energéticas. Com o início do conflito no Irã e o aumento do preço do petróleo, gás natural e seus derivados, essas deficiências se tornaram visíveis mais uma vez. Conforme os dias passam e o Estreito de Ormuz segue fechado, a situação na região ficará cada vez mais crítica. Entretanto, esses problemas ainda não se refletem no STOXX 600, que continua perto de suas máximas históricas, muito menos nos spreads dos títulos high yield europeus, que continuam em suas mínimas. Em nossa leitura, há um risco material para os investidores expostos no mercado acionário europeu.



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